CHAMADA: Dossiê “História e Filosofia da Ciência: Produção Científica e Circulação de Repertórios”

A Revista Temporalidades é de organização discente dos alunos do programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais, que nesta edição número 36 contempla o dossiê cuja temática, “História e Filosofia da Ciência: Produção Científica e Circulação de Repertórios”, inscreve-se na linha de Ciência e Cultura na História. Assim, convidamos para se juntar a nós na organização deste dossiê o prof. Dr. Mauro Lúcio Leitão Condé. A partir da perspectiva da História e da Filosofia da Ciência, intentamos apresentar uma abordagem transdisciplinar que conjuga as epistemologias científicas com o processo de produção, divulgação e circulação do trabalho científico, sobretudo para a sociedade em geral. Assim, entendemos a importância de buscar reflexões sobre tais eixos temáticos (ciência, história, epistemologia e divulgação científica), haja vista o entendimento de que, historicamente, a produção científica está associada a um projeto de divulgação do desenvolvimento tecnológico e técnico assim como da ampliação dos saberes científicos. 

História e Filosofia da Ciência não compreendem apenas um trabalho de descrição sobre a cronicidade do progresso científico e sobre as matrizes epistemológicas pertencentes à produção científica, especialmente os trabalhos atrelados ao estudo dos fenômenos naturais. Este campo do saber realiza investigações que visam, para além dos aspectos epistemológicos, compreender os impactos sociais das descobertas científicas sobre os fenômenos naturais, considerados também como um produto cultural. Logo, se o objeto de análise é a ciência a partir de suas matrizes epistemológicas, práticas científicas, institucionais e sociais, pretendemos compreender também o papel da cultura neste processo de construção do conhecimento científico. 

Embora, o objeto da ciência (natural) seja um fenômeno natural, ela não escapa de ser um produto cultural. Isto coloca em xeque a questão da neutralidade científica, preconizada pelos positivistas. Não obstante, torna-se impossível ignorar as especificidades próprias das formas de conceber e produzir saberes científicos. A afirmativa do professor Mauro Condé reforça esta ideia ao assinalar que “se um fenômeno social que se configurou de uma forma poderia ter se configurado de outra maneira, um fenômeno natural sempre poderá ser visto culturalmente de modo diferente, mesmo observando os limites de comportamento da natureza” (CONDÉ, 2006, p.11). 

Um outro aspecto a salientar é que, neste processo, podemos perceber a importância da linguagem na produção deste conhecimento e na sua divulgação; uma vez que a linguagem de cada pesquisador se encontra protegida pela especificidade de seus próprios códigos. Sobremodo, interrogar o uso e a finalidade dessa linguagem em seu desdobramento político e social torna-se imprescindível para perscrutar os sentidos do trabalho do pesquisador e de sua produção, assim como entender o alcance da contribuição desta atividade para a sociedade. Nesse caso, é preciso repensar a linguagem e a mobilização de repertórios do discurso científico articulado por meio de uma linguagem hermética e específica, a qual cria dificuldades de intepretação até mesmo para os seus principais interlocutores (membros da comunidade científica). 

Se entre os ditos pares tal linguagem torna-se uma dificuldade para a promoção de um determinado conhecimento, ressalta analisar os efeitos desse discurso na população em geral, que é suscetível à cenários de negacionismo e divulgação de falsas informações. Com efeito, faz parte desta edição tentar compreender sobre a perspectiva da Filosofia, da Historicidade e da Linguagem como essas dificuldades de comunicação e divulgação científicas poderiam ser superadas. Qual o lugar do conhecimento científico na sociedade? Ser algo hermético, inacessível ao cidadão comum para além do uso acrítico deste conhecimento? Como conviver com a própria natureza da ciência em seu inexorável caminho da especificidade, que gera abismos profundos na comunicação entre comunidades científicas e na comunicação e o público em geral? 

Não se pode olvidar de que o conhecimento produzido sobre os fundamentos de uma sociedade de elevada desigualdade econômica e dividida em classes, que se antagonizam por interesses diversos, também se localiza distribuído de modo assimétrico e excludente. Por conseguinte, os reconhecidos avanços na produção científica e tecnológica contrastaram com um cenário de analfabetismo e pobreza. Desse modo, não podemos nos eximir deste debate. Ao contrário, nosso intento é fomentar movimentos reflexivos sobre a questão da linguagem científica e os seus usos sociais. Apesar de haver ainda quem defenda o rigor da trama discursiva restrita apenas ao entendimento de seus pares, há aqueles que buscam uma democratização permanente do acesso ao conhecimento científico e tecnológico, percebido como um patrimônio universal da cultura. Também é de interesse realizar o debate sobre a questão da invasão cultural e do respeito a outras formas de produção de saberes, confrontando o multiculturalismo a uma possível uniformização da cultura pela ciência e pela tecnologia. 

Nesta edição, buscamos colocar em análise as perspectivas históricas da produção do conhecimento científico e suas epistemologias face a questão da divulgação desse saber para a sociedade e seus desdobramentos na esfera pública, tomando em especial a questão do negacionismo científico (vigente hoje assim como no passado). A ideia é procurar pensar para quem e o porquê da produção do conhecimento científico discutindo os critérios da racionalidade científica em sua ambivalência, considerando o estudo dos fenômenos naturais e como os mesmos são interpretados pelas comunidades científicas localizadas na especificidade do tempo e do espaço social. Assim, buscamos colocar em diálogo as diversas faces da produção e da divulgação do trabalho científico, considerando seus aspectos filosóficos, sociais e culturais. Não obstante, importa observar que estes diálogos se inscrevem segundo uma gramática (Wittgenstein), estilos de pensamento (Fleck) e os léxicos (Kuhn) que funcionam como aportes teóricos e metodológicos, além de servirem como aparatos culturais para a interpretação dos fatos e fenômenos da natureza. A afirmativa destas perspectivas de interpretação dos fatos se impõe posto que a cultura não é apartada do fato, e sem o fato o homem se distancia da cultura.

Organização:

Doutoranda Bárbara Braga

Mestranda Elizabeth Rouwe

Prof. Dr. Mauro Lúcio Leitão Condé

Acesse para saber mais: https://periodicos.ufmg.br/index.php/temporalidades/announcement

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