Pesquisadores da Linha 3 do GP participam de evento na Universidade Estadual de Maringá – UEM

Em parceria com a Profa. Dra. Juliana Figueira da Hora, os mestrandos Débora Silva Maria e Vinícius Ferreira Lima, pesquisadores da Linha 3 do Grupo de Pesquisa CISGES/UNISA/CNPq, participaram, com apresentação de trabalho, em evento organizado pela Universidade Estadual de Maringá – UEM. A comunicação abre os trabalhos do novo projeto de pesquisa proposto pela Linha 3 conforme pormenoriza o texto abaixo. Parabéns aos envolvidos, em especial, aos mestrandos dessa nova turma do Programa em Ciências Humanas. Sucesso no desenvolvimento da pesquisa, ora apresentada ao grande público:

MULHERES E MEMÓRIA EM SÃO PAULO: CAROLINA MARIA DE JESUS E A VOZ INVISIBILIZADA DA CIDADE

Profa. Dra. Juliana Figueira da Hora (UNISA)

Débora Silva Maria (UNISA)

Vinícius Ferreira Lima (UNISA)

Resumo:

Temos o objetivo de apresentar o projeto de pesquisa bienal do Grupo de Pesquisa CISGES (Ciência, Saúde, Gênero, Sentimento) – Linha 3: Gênero, Mobilidade e Fronteiras – Interdisciplinaridade e Construções identitárias. O projeto envolve mestrandos do Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas da UNISA (Universidade Santo Amaro), visando desenvolver e discutir a temática do gênero e da interseccionalidade na vida e obra de Carolina Maria de Jesus. O cotidiano exposto em “Quarto de despejo: Diário de uma favelada” nos permite problematizar a convivência da escritora, mulher preta e pobre, com a realidade da cidade excludente, dialogando com os seus espaços e desafios de gênero que se colocam nas reflexões da autora.  A partir de uma metodologia interdisciplinar, intentamos desenvolver a discussão, a fim de trazer para as memórias de São Paulo da primeira metade do século XX, vozes femininas invisibilizadas, problematizadas sob a ótica das discussões de gênero e da interseccionalidade.

Palavras-chave: Carolina Maria de Jesus; Interseccionalidade; Gênero; História das mulheres; São Paulo. 

Introdução

Considerando a cidade um espaço complexo da produção das relações sociais, esta pesquisa analisará a vivência de mulheres em São Paulo na segunda metade do século XX a partir dos dizeres de Carolina Maria de Jesus. Partindo de um olhar inquieto, fora da previsibilidade das narrativas literárias da classe média, a autora expõe uma representatividade única, na qual esboça as interconexões entre classe, raça e gênero.

 A obra autobiográfica “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, traduzida em diversas línguas, alcançou o mundo com uma literatura à margem, de tradição oral, popular e universal. Como uma mulher negra afro-mineira traz toda sua experiência, migrante em São Paulo, em uma atmosfera imersa no deslocamento espacial, social e cultural. A história por trás das histórias de mulheres negras e pobres de São Paulo ganham visibilidade no mundo pelos olhos da escritora.

Analisaremos, por meio do levantamento documental dos manuscritos, documentários e entrevistas, além da análise da obra “Quarto de despejo”, questões relacionadas ao gênero e interseccionalidade na narrativa, e ao mesmo tempo, um trabalho investigativo e historiográfico em torno de debates proporcionados pela micro-história sobre a vida da escritora, sua vivência na periferia, a fim de revelar a cidade em meio às suas memórias de exclusão apagadas da história.

Gênero e interseccionalidade na obra de Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, interior de Minas Gerais, em 1914. Teve uma formação educacional formal muito precária, suficiente para aprender a ler e escrever, habilidades essenciais para que já sonhasse em ser escritora. Em 1937 muda se para São Paulo, cidade na qual viveu em diversas moradias até se instalar, em 1948, na Favela do Canindé. Para conseguir oferecer alimento aos filhos, coletava papéis e sucatas na rua.

Em 1960, tem seu livro autobiográfico “Quarto de despejo: Diário de uma favelada” publicado, expondo as vivências de uma mulher pobre, afro-mineira e periférica em uma metrópole. Carolina Maria recebe muitas críticas por possuir uma escrita que mescla as formalidades da língua portuguesa e a oralidade, além de utilizar recursos simples, como a repetição, para expor sua rotina:

25 de agosto

Fui buscar agua e fiz café. Não comprei pão. Não tinha dinheiro. Eu ia levar os filhos, vi uma menina que ia na aula, perguntei-lhe se ia ter aula. Disse-me que sim. Eu vesti o José Carlos, e o João foi do geito que estava. Prometi levar-lhe um lanche. E saí com a Vera. Não havia papeis nas ruas porque apareceu outro homem pra catar. Achei ferros e metaes. (JESUS, 2014, p. 117)

Levando em consideração o contexto ao qual o texto foi escrito, a cidade de São Paulo, desde o início do século XX, passava por uma forte industrialização, momento este em que fábricas foram instaladas, mudanças socioeconômicas surgiram e bairros começaram a se formar. Em contraponto, o centro da metrópole não comportava todos aqueles que circulavam pelo ambiente fabril, que cuidavam das grandes residências, sendo cada vez mais “empurrados” para outras regiões, as quais se diferenciavam dos cartões postais da cidade.  

A temática recortada é ampla e complexa, expondo disputas históricas, discursivas e geográficas. Sendo assim, este projeto não pretende esgotar as discussões nesses campos, mas sim descolonizar perspectivas hegemônicas por meio das discussões de gênero e interseccionalidade, apontando novos caminhos e perspectivas a partir das vozes e memórias de mulheres invisibilizadas. 

Os objetivos deste projeto bianual é justamente analisar as interpenetrações na construção do discurso nos registros escritos de Carolina Maria de Jesus, que revelam uma cidade a partir da sua vivência como escritora negra e pobre. Em paralelo a sua obra, também é possível levantar uma documentação arquivística de elementos que reforçam o diário de “Quarto de despejo”, problematizando a questão de interseccionalidade frente aos fatores que se revelam na relação entre a obra e a realidade.

Para dar conta das complexidades, das interpenetrações e das dinâmicas sociais, é necessário organizar a realidade a partir de pontos que se chocam, sendo eles a raça, a classe e o gênero. Angela Davis (2018, p. 22) afirma quando estudamos papéis de gênero, é essencial reconhecer os atravessamentos de estruturas que são históricas e contemporâneas ao mesmo tempo, exemplificando com o racismo, xenofobia e o heteropatriarcado.

Para Carla Akotirene, é preciso descolonizar perspectivas hegemônicas, compreender a diáspora negra a partir da língua escravizada, que esteve amordaçada politicamente, impedida de se manifestar (2020, p. 20). Assim também como explana bell hooks a respeito da invisibilidade da mulher, mais especificamente a mulher negra, devido as questões de onde vieram, como a sociedade as veem e as poucas oportunidades que são encontradas (1994, p. 466).

Dessa maneira, analisar a obra “Quarto de despejo: Diário de uma favelada” é mergulhar em um cenário que as estruturas sociais se interpenetram em diversas dimensões, proporcionando olhares que a micro-história vem historicizando e colocando em debate. Na busca pela historicização do percurso das mulheres como sujeitos/participantes da história, começaram a surgir, a partir dos anos 1980 a preocupação com as vozes femininas excluídas da sociedade, a fim de romper as barreiras do debate de gênero. De acordo com Rago (1998), era necessário romper desconstruir e narrar a História.

Como sujeita da história, a escrita de Carolina Maria de Jesus proporciona uma visão do passado com reflexos no presente devido as semelhanças encontradas nas vivências nas favelas atuais. Com sua sensibilidade e jeito próprio, Carolina consegue dar pistas de uma sociedade excludente, dificuldades vividas de certos indivíduos e nos faz conhecer a cidade de São Paulo por um olhar além de seus grandes prédios e cartões postais.

Nos aspectos metodológicos, pretende-se analisar o discurso na obra “Quarto de despejo: Diário de uma favelada”, problematizadas sob o prisma da interseccionalidade. Em conjunto, intentaremos um levantamento e organização documental referente a vida e obra de Carolina Maria de Jesus, a partir de uma metodologia interdisciplinar, a fim de trazer para as memórias de São Paulo da primeira metade do século XX, vozes femininas invisibilizadas. Este levantamento documental poderá ser realizado em museus e acervos, como no Instituto Moreira Salles, bem como nos documentários produzidos acerca da vida da escritora.

Considerações Finais

A vida e obra de Carolina Maria de Jesus, uma mulher escritora, pobre e negra, expõe o cotidiano de uma metrópole excludente. Analisar este material é possibilitar que as sujeitas fazedoras das suas histórias e da cidade tenham voz, sabendo que a histografia se configura como um campo de disputa de narrativas. Sendo assim, descolonizar o discurso hegemônico é urgente, apontando novos caminhos e perspectivas, principalmente por meio da voz de grupos e sujeitos(as) invisibilizados e deslocados(as).

Como foi posto, o projeto não pretende esgotar as discussões da temática. A partir das perspectivas interdisciplinares e da interseccionalidade, tem em vista abrir ainda mais as discussões no campo da história das mulheres, relacionando as subjetividades, a raça, a classe e o espaço no qual elas constroem e reconstroem seus caminhos.

Referências

AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. Editora Jandaíra, Série Feminismos Purais- coordenação Djamila Ribeiro, 2020.

ALVES, Gláucia da Rosa do Amaral; BECKER, Elsbeth Leia. As mulheres e a Historiografia. Disciplinarum Scientia Série: Ciências Humanas Santa Maria, v.19, n1, p.115-128, 2018.

DAVIS, Ângela. Mulheres, raças, classes: desafios para o século XXI. In: MARUANI, Margaret (org.). Trabalho, logo existo: perspectivas feministas. Rio de Janeiro: FGV, 2019, p. 17-28.

HOOKS, Bell. Intelectuais Negras. In: Estudos feministas, Brasil, v.3, n.2, p.464-478. 1995.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo:

Ática, 2014.

RAGO, Margareth. Descobrindo historicamente o gênero. Cadernos Pagu. Campinas, São Paulo, n 11, p. 89-98, 1998.  

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