Eventos | Revista Portuguese Literary & Cultural Studies “As Veias Abertas do Pós-colonial: Afro-descendências e Racismos” n.34

Portuguese Literary & Cultural Studies é uma revista avaliada por pares e publicada on-line e em papel pela Tagus Press, no Centro de Estudos e Cultura Portuguesa da Universidade de Massachusetts Dartmouth.

Neste título, As Veias Abertas do Pós-colonial: Afro-descendências e Racismos, é ostensiva a apropriação do livro de Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América Latina, publicado há mais de 40 anos. Embora possa parecer despropositada essa paráfrase, tendo em conta que o seu autor “renegou” o livro, o mesmo não se pode dizer das veias do pós-colonial cujas heranças coloniais têm vindo a prolongar-se e a reproduzir-se ao longo de décadas após a queda dos mais recentes impérios coloniais.

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Com efeito, os portadores da herança colonial que hoje vivem nas ex-metrópoles coloniais – quer ex-colonizados quer seus descendentes, a quem vamos chamar afrodescendentes – vivem este momento com as veias abertas, um estado que, note-se, é também partilhado pelos ex-colonizadores e seus descendentes. Porém, o segmento afrodescendente é, nos espaços que habita nas Américas e na Europa particularmente (embora não apenas), bastante fustigado por uma série de bloqueios, que vão desde  endógenos (mesmo que impulsionados por factores exógenos) a bloqueios que (lhes) são impostos por uma sociedade cuja visão identitária da “comunidade imaginada” teima em reproduzir modelos essencialistas que não incentivam uma visão plural, em termos identitários e de paisagem humana, do país que é indubitavelmente feito hoje, no século XXI, de várias pertenças, realidade não exclusiva de qualquer país de imigração mas também de qualquer país que foi potência colonial. E esse não reconhecimento do Outro como o Mesmo, diverso apenas e não diferente, causa tanta perplexidade quando, no caso de Portugal, nosso lugar de fala (embora não seja produtivo falar apenas a partir de lugares da ex-metrópole, mas também de destinos de homens escravizados), esta ex-potência colonial se vangloria da sua herança atlântica. É essa não consciência de uma realidade pós-colonial, também na ex-metrópole (e não apenas no ex-império), que naturaliza a invisibilidade do não branco em instituições da sociedade civil, nos partidos, nas instituições do Estado ou do outro tipo. E essa invisibilidade é reforçada, porque omissa enquanto problema, quando artistas africanos ou afrodescendentes que conseguem romper as barreiras do silêncio e conquistar um espaço na cena social omitem do seu discurso a questão do racismo ou da representatividade – mais preocupados em buscar o “reconhecimento” daqueles que sempre os discrimina(ra)m (Frantz Fanon) do que em buscar uma emancipação e afirmação identitária, individual ou colectiva. É então que a questão da representatividade do segmento afrodescendente em instâncias da “comunidade imaginada”  se cruza com a do racismo como ideologia de deslegitimização que visa a exclusão desse segmento e o circunscreve à problemática da (i)migração.

Pretende-se, neste número da revista Portuguese Literary & Cultural Studies (PLCS), que surjam categorias epistemológicas e temáticas da análise de diferenças raciais e étnicas bem assim como decorrentes da sociabilidade, representações e dinâmicas sociopolíticas e culturais. O que se pretende, também, é que se possa desvelar a discursividade naturalizante da ideologia da subalternidade e a discriminação institucionalizada por várias “crenças” e práticas tácitas (por exemplo, o pressuposto de que a criança africana ou afrodescendente tem mais dificuldade na disciplina de Português). O que se pretende, igualmente, é que se discuta e se compreenda como é que o lugar de pertença se articula com a identidade étnico-racial neste século XXI, tentando, ainda, contribuir para o debate sobre algumas categorizações e conceitos aparentemente estabilizados (populações racializadas, afrodescendente). O que se pretende, ainda, é que se contribua para o amplo debate proposto pela ONU ao declarar uma Década Internacional de Afrodescendentes, 2015-2024 (resolução 68/237), que se propõe alertar para a precariedade desses segmentos, em vários espaços do mundo, em termos de “reconhecimento, justiça e desenvolvimento.” Pretende-se, enfim, encontrar estratégias, discursivas e de acção, que possibilitem que essas veias abertas possam ser “cosidas” para que não sangrem até uma crónica invisibilidade.

Eixos temáticos:

  • Racismo como herança colonial;
  • Racismos e racialismos;
  • Afrodescendente como categoria colonial;
  • Afrodescendência como lugar da enunciação;
  • Processos de afirmação coletiva: activismos e acções sociais e políticas;
  • Activismos e acções sociais e políticas significativas para a participação na sociedade;
  • A participação social dos afrodescendentes na sociedade do século XXI;
  • Mecanismos de exclusão social e identitária dos afrodescendentes;
  • Afrodescendentes: estilos de vida, sociabilidade, produção cultural e prática urbana;
  • Identidades diaspóricas: entre a herança colonial e a emancipação identitária.

São ainda aceites propostas referentes a outros interesses e abordagens de diversas disciplinas.

A data limite para apresentação de propostas é 1 de março de 2019. São aceites artigos em Inglês ou Português. As propostas devem estar de acordo com as normas da revista, que estão disponíveis na página da revista!

Contacto e submissão de propostas para Inocência Mata (mata.inocencia@gmail.com) e Iolanda Évora (ioevora@gmail.com).

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